Religião, Hipocrisia e a Leniência Conveniente do Poder Público

Uma análise reflexiva é tudo o que precisamos para aprofundar nossa compreensão sobre o tema.

Vamos dizer não ao feminicídio e a todas as formas de agressão contra a mulher.

Embora este blog seja um espaço voltado às questões da religiosidade e espiritualidade de matriz africana, não posso ignorar fatos e acontecimentos que, de forma escandalosa, afetam nossa sociedade como um todo. Esses eventos impactam, direta ou indiretamente, de maneira negativa, especialmente os segmentos religiosos que compõem nosso tecido social.

A ideia deste texto surgiu a partir de um recente feminicídio que vitimou uma conhecida repórter e influenciadora em nossa capital, Campo Grande – MS. O ocorrido abalou alguns sistemas, expondo a fragilidade e o descaso do poder público, especialmente por parte de funcionários dos setores que deveriam atender a uma sociedade civil mais vulnerável. Quando essas pessoas recorrem a seus serviços, frequentemente não recebem os devidos cuidados e atenção, o que acaba resultando em tragédias em cerca de 70% dos casos.

Esse caso ganhou grande repercussão não apenas pelo ato em si, mas também por se tratar de uma cidadã publicamente conhecida por seu trabalho. Logo após o ocorrido, vieram à tona áudios da vítima, que geraram alvoroço e comprometimento da Delegacia da Mulher, especialmente envolvendo a delegada do caso. Isso expôs claramente como a falta de atenção e os cuidados necessários se tornam fatores de grande risco para aquelas que buscam ajuda preventiva.

Infelizmente, este não é um caso isolado. É mais um episódio que ganhou destaque devido à influência da vítima nas mídias sociais. E quanto às outras mulheres anônimas que também são negligenciadas, mas não possuem a mesma visibilidade? Essas são apenas vítimas silenciadas, invisíveis na sociedade, mais um número doloroso nas estatísticas e discursos sobre a qualidade do serviço prestado.

Não faço isso para atacar instituições que merecem nosso respeito. A ideia inicial e o propósito fundamental de sua criação foram bem-intencionados. No entanto, as tratativas e atitudes dos servidores responsáveis por esses setores em relação à população, que deveria ser 100% ouvida e protegida em suas demandas, acabam transformando essas pessoas em alvos de descaso, ironias, humilhações e deboches. Isso ocorre por conta de servidores que se consideram acima da realidade das verdadeiras vítimas, que relatam seus dilemas e medos em busca de proteção e ajuda, mas fracassam nessa tentativa.

Essas não são apenas acusações levianas, mas relatos de inúmeras mulheres vítimas de diversos tipos de agressões físicas, psicológicas e morais. Ao buscarem socorro, deparam-se com descaso e descrédito por parte daqueles que deveriam defender e investigar os casos denunciados, promovendo a proteção e as devidas investigações, além de medidas protetivas para essas vítimas até que os fatos sejam esclarecidos.

E por que o título “Religião, Hipocrisia”? Aqui entra um fator que, querendo ou não, se relaciona diretamente com o tema acima mencionado, e é tão importante quanto. Em face de tais atrocidades, muitas vezes essa hipocrisia se torna o motivo culminante e o desfecho trágico para as vítimas do desespero e das más orientações de suas lideranças religiosas.

Quando algo negativo e lamentável acontece em nossos espaços religiosos, como terreiros e templos, isso rapidamente escandaliza as mídias, generalizando e criminalizando nosso segmento religioso afro (umbanda, candomblé, etc.), como se fôssemos os únicos a promover esse cenário de agressões, crimes e brutalidades contra os direitos do outro. Contudo, como minorias e povos socialmente, financeiramente e politicamente mais fragilizados, nós, os Povos de Terreiro, conseguimos discernir e agir com empatia diante da dor dessas vítimas. Denunciamos os agressores e apoiamos as vítimas em nosso espaço religioso, aplicando os princípios de família que fundamentam nossa religião e espiritualidade.

Nesse sentido, entendemos que um agressor, seja quem for, não pode e não deve ser acobertado em prol de um falso moralismo, em detrimento da vítima, como forma de proteger a religião, seja a nossa ou outras que, mesmo sem serem mencionadas, muitas vezes incentivam o silenciamento da vítima para preservar o bom nome do segmento religioso. Essa omissão ocorre na tentativa de evitar escândalos policiais e judiciais que possam comprometer a liderança ou o segmento religioso.

Sem promover um ataque a segmentos específicos, e sem generalizar, é importante ressaltar a postura de alguns segmentos “evangélicos pentecostais”, que, ao invés de incentivar a denúncia de abusos e torturas psicológicas, aconselham a parte oprimida a apenas orar e entregar suas angústias a Deus, como se Ele fosse conivente com essa situação. Essas lideranças, ávidas pelo controle de seus fiéis e pela proteção de suas instituições, sufocam a parte oprimida com tais conselhos. Na maioria das vezes, erros, torturas e opressões são atribuídos a uma suposta obra do demônio, fazendo com que a vítima continue refém dos abusos do opressor e da sociedade religiosa, na expectativa de um milagre que, no final, resulta em sequelas psicológicas graves, traumas irreparáveis e, em alguns casos, até mesmo suicídio como única forma de fuga ou alívio para o sofrimento.

Reitero que o que digo aqui não são palavras e acusações levianas, mas relatos autênticos ouvidos em inúmeras confidências e desabafos, especialmente de muitas mulheres que conseguiram sobreviver e conviver com esses traumas, mas que, muitas delas, mesmo após anos, ainda vivem uma vida totalmente afetada psicologicamente, desestruturadas e abandonadas pelo poder público e pela religião. Esses setores deveriam observar de perto, sem politização ou doutrinação, os fatos como realmente são e acolher aquelas que tiveram suas vidas destruídas pelo descaso de quem deveria protegê-las.

Devemos refletir sobre o conceito de família em uma sociedade civil e religiosa justa. Aceitar todos os tipos de ameaças, tortura física e psicológica, humilhações e descasos para manter o bom nome de uma instituição religiosa ou de um relacionamento fadado ao fracasso e à violência é aceitável? Ou devemos, de fato, orientar o caminho do bem viver, respeitando a espiritualidade, o amor à instituição familiar e os códigos civis? Por que a religião se cala e incentiva tais ocorrências? Será esse o caminho da salvação da humanidade? Será esse o olhar do Deus de justiça e amor?

Este é um olhar crítico e um chamamento à sociedade para que observe melhor o mundo em que vivemos e o que estamos construindo para nossos descendentes. Analisar de forma fria, justa e coerente este tema nos convida a uma reflexão pessoal e imparcial, levando-nos a compreender que a leniência ou o conluio é um caso sistêmico enraizado na estrutura do poder, independente de classes sociais ou segmentos da sociedade. Compreender isso claramente demonstra a necessidade de uma análise mais profunda e ampla da estrutura que requer um olhar atento e minucioso sobre os acontecimentos diários em nossa sociedade, independentemente de segmentos religiosos ou sociais. É evidente que, entre esses infelizes acontecimentos, a mudança ocorre apenas no cenário social, enquanto os dramas dessas tragédias permanecem.

Por fim, gostaria de compartilhar uma reflexão que não é de minha autoria, mas que explicitamente aborda como “Religião, Hipocrisia e a Leniência Conveniente do Poder Público” podem impactar a sociedade de maneira perversa.

… “A hipocrisia é a prática de alegar ter padrões mais elevados ou crenças mais nobres do que os outros, seja em casos públicos ou isolados. Ela legitima a fraude e, consequentemente, a tirania, legalizando a homenagem que o vício presta às virtudes. Para pessoas de capacidade limitada, a modéstia é apenas um adereço da “honestidade”, revelando que a hipocrisia não é uma maneira adequada de retornar a um patamar moral elevado.

A hipocrisia do ser humano é um constante puxão entre solidão e companhia, o desejo de amar desesperadamente e, ao mesmo tempo, estar separado de tudo, de querer tudo e não querer nada. A hipocrisia é geralmente definida como uma inconsistência entre a postura de uma pessoa e seu comportamento subsequente — ou seja, dizer uma coisa e fazer outra. A violação de uma postura moral é julgada como especialmente flagrante.

Enquanto isso, o interesse próprio é a razão mais óbvia para agirmos como hipócritas. Quando questionadas sobre por que agem em conflito com seus próprios padrões morais, muitas pessoas dirão que os custos pessoais superam a intenção de agir moralmente.

Este texto foi lido em um perfil de Facebook, de autoria do Sr. Ibrahim Oladebo. Embora eu tenha adaptado e traduzido suas palavras, não sei o motivo real que o levou a essa reflexão e talvez não concorde com o propósito inicial pelo qual foi escrito. No entanto, concordo plenamente com a reflexão sobre o tema, pois entendo que este é um dos fatores corrosivos e nocivos a todos os setores de nossa sociedade. Por isso, decidi concluir este artigo com essa reflexão, considerando-a uma contribuição construtiva e relevante sobre a definição da mensagem que aqui tentei expressar. A hipocrisia é, sem dúvida, uma dose perversa de veneno e mãe de muitos outros males que ferem os princípios mais caros da dignidade e dos direitos humanos.

Frank Edesola Adebayo

Um comentário

  1. Ivete Leão Nobre

    Me coloco no lugar de quem já passou por tudo isso.O orar e esperar, pode ser tarde para muitas mulheres.Passando por um labirinto de terror, onde as pessoas próximas, a quem pedia socorro, elas optaram por não se envolverem.Na vida do conto de fadas, onde tudo aparentemente parece perfeito.Mas na realidade o terror tem que ser superado ou para não dá um ponto final, nos apoiamos aos nossos familiares e pouco amigos.Para nos apoiar e toma as rédeas para nós blindar, exatamente daqueles que deveriam nos proteger.Omissos e negligentes, quando chegamos a pedir socorro, as autoridades se trancam nas suas salas e a morosidade só favorece o opressor a continuar, pois as leis são brandas e em nome de uma santidade a espera se faz nescessária.

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